Anos depois de ter escrito O Guarani, José de Alencar releu a obra do americano James Fenimore Cooper (autor de O último dos moicanos) a fim de verificar a observação dos críticos que repetiam de oitiva que O Guarani era um romance ao gosto de Cooper.
Para Alencar, o que se precisava examinar era se as descrições de O Guarani teriam algum parentesco ou afinidade com as descrições do autor americano; mas isso, opinava o brasileiro em seu testamento literário Como e porque sou romancista, os críticos não faziam, pois isso dava trabalho e exigia que se pensasse.
Alencar tinha a certeza de que bastaria o confronto para saber que O Guarani não se parecia com nenhum dos livros de Cooper, nem no assunto, nem no gênero e estilo.
A esse propósito, Alencar tentou dirimir definitivamente quaisquer possíveis dúvidas afirmando peremptoriamente que se assim fosse, haveria coincidência, e nunca imitação; mas não é. Meus escritos se parecem tanto com os do ilustre romancista americano, como as várzeas do Ceará com as margens do Delaware.
O autor se convenceu de que ali, nas críticas, não havia mais do que rojão.
Não havia no romance brasileiro um só personagem cujo tipo se moldasse nos Moicanos, Espíão, Ontário, Sapadores e Leonel Lincoln, ou qualquer outro personagem dos livros de Cooper.
Mais próximo à verdade, talvez, estivesse Machado de Assis ao dizer (a propósito das influências em O Guarani) em um prefácio escrito em 1888: Quaisquer que sejam as influências estranhas a que obedeceu O Guarani este livro é essencialmente nacional.
José de Alencar é um dos escritores mais populares do Brasil e o seu O Guarani, escrito dia a dia, sem o nome do autor, para os folhetins do jornal O Diário do Rio, entre os meses de fevereiro e abril de 1857, é um livro conhecido por muitos brasileiros e suas edições ainda hoje são bastante concorridas.
Já em 1857, desde a publicação dos primeiros folhetins, causou esse romance uma forte impressão em todo o público da Corte e até onde chegava o jornal nas províncias.
Havia ansiedade e entusiasmo pela sua leitura.
O mestre cujos ensinamentos José de Alencar seguiu à risca na confecção de sua obra, confessaria o próprio autor, foi a esplêndida natureza brasileira e particularmente a magnificência dos desertos que ele perlustrou ao entrar na adolescência, e foram o pórtico majestoso pôr onde sua alma penetrou no passado de sua pátria.
Portanto, foi daí, desse livro secular e imenso, a que chamamos natureza, é que Alencar tirou as páginas de O Guarani e outras de sua grande obra.
Para Mario de Alencar, filho do autor, o que o público achou diferente emO Guarani, quando comparado a outros romances daqui e de fora, foi a inspiração fundamental, a sinceridade e a espontaneidade da expressão, a poesia descuidada de si mesma, instintiva, fragrante do aroma de nossa terra.
É a alma brasileira que encontramos nas páginas desse livro precioso.