Charles H. Spurgeon
INTRODUÇÃO Há glórias que brilham por um instante e apagam-se na mesma noite.
Há triunfos que nascem da vaidade e terminam em vergonha.
Há coroas que os homens colocam sobre si mesmos — e que, cedo ou tarde, se revelam feitas de palha.
O coração humano tem sede de glória; ele sempre procura um motivo para exultar, um nome para exibir, uma base para se afirmar.
E, justamente por isso, o homem se torna tão facilmente escravo daquilo que escolhe para adorar.
Mas existe uma glória que não é fabricada por mãos humanas, que não depende de aplausos, que não desmorona com o tempo e não se desfaz na morte.
Existe uma glória que não nasce do brilho da criatura, mas do conselho eterno de Deus; uma glória que não cresce à custa da verdade, mas se levanta para vindicar a justiça; uma glória que não se apoia em méritos, mas em sangue; não em orgulho, mas em graça.
Esta glória tem um nome que o mundo despreza e que o céu celebra: a cruz de nosso Senhor Jesus Cristo.
É um escândalo para a soberba religiosa e loucura para a pretensa sabedoria do século que a maior honra do Evangelho esteja no lugar da maior humilhação.
Entretanto, é ali — no madeiro, entre a vergonha e a dor, cercado de zombaria e coroado de espinhos — que Deus ergueu o Seu estandarte.
O mundo olha para a cruz e vê fraqueza; Deus olha para a cruz e revela poder.
O mundo vê derrota; Deus proclama vitória.
O mundo vê desonra; Deus manifesta glória.
O mundo vê um condenado; Deus apresenta o Cordeiro.
E o eleito, iluminado pelo Espírito Santo, aprende a olhar para o mesmo cenário e dizer, com Paulo, não como frase religiosa, mas como confissão de vida: “Mas longe esteja de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim, e eu para o mundo.”
Este livro-sermão foi preparado para conduzir o leitor novamente a esse centro.
Não para satisfazer curiosidade, nem para enfeitar a fé com palavras elegantes, mas para firmar o coração na única rocha que não cede.
Em dias de tantas “novidades” e de tantos evangelhos sem sangue, precisamos voltar ao Calvário e reaprender o que já deveríamos saber: a cruz não é um detalhe da mensagem cristã — é o seu coração; não é um ornamento — é o seu alicerce; não é um tema entre outros — é o ponto onde todas as verdades se encontram e se explicam.
Aqui contemplamos, com reverência, aquilo que nenhuma mente humana inventaria: o Justo morrendo pelos injustos; o Santo carregando o pecado; o Filho amado suportando a maldição; Deus punindo o pecado sem destruir o pecador eleito; Deus abrindo os braços ao culpado sem trair a Sua própria santidade.
Na cruz, a lei é honrada, a culpa é removida, a paz é comprada e o amor é mostrado com uma grandeza que silencia toda comparação.
E, quando a cruz é realmente vista, algo acontece com o homem.
A própria glória do mundo perde o brilho.
Suas honras parecem pequenas.
Sua aprovação se torna suspeita.
Seus prazeres se revelam pobres.
Sua sabedoria mostra-se loucura.
A cruz não apenas salva — ela separa.
Ela coloca um fim ao domínio do mundo sobre o coração e, ao mesmo tempo, crucifica o ego que tanto deseja ser visto, lembrado e exaltado.
Assim, ao redor do Crucificado, nasce uma nova vida: humilde, santa, grata, fervorosa; uma vida que não precisa de vaidade para existir, porque tem Cristo como tesouro e a cruz como glória.
Leitor, não se aproxime destas páginas como quem visita um monumento antigo.
A cruz não é relíquia; é poder de Deus.
Ela não está aqui para ser admirada de longe, mas para ser abraçada pela fé.
Venha com as mãos vazias, com o orgulho abatido, com a consciência desperta, com sede de perdão e de descanso.
E peça ao Senhor que faça com você o que fez com Paulo: que a cruz se torne o seu único fundamento de esperança, a sua mais alta alegria, a sua mais firme paz, a sua mais santa separação e a sua mais verdadeira glória.
Que o Espírito Santo, que exalta Cristo e humilha o homem, conduza você a esse lugar onde a graça reina pela justiça; e que, ao final, não apenas os seus lábios, mas a sua vida inteira possa dizer: “Longe esteja de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo.”
Divino Cordeiro