Charles H. Spurgeon
INTRODUÇÃO Há visões que levantam o homem; e há visões que o derrubam.
Há encontros com Deus que inflamam o coração e há encontros que fazem o corpo tremer.
Quando a glória é apenas contemplada de longe, ela nos encanta; quando se aproxima e nos envolve, ela nos revela.
E, então, aquilo que julgávamos força mostra-se fraqueza; aquilo que pensávamos ser firmeza se desfaz; aquilo que chamávamos de coragem se cala.
É por isso que a Escritura, com uma sobriedade santa, não romantiza o impacto da majestade de Deus sobre a criatura: “E, quando o vi, caí a seus pés como morto.”
(Apocalipse 1.17). O discípulo amado não é um covarde, mas um homem; e Deus não é um conceito, mas o Senhor.
Este capítulo nasce dessa tensão viva: um Mestre glorioso e um discípulo desfalecido.
Ele nos conduz à cena em Patmos, onde o Filho do Homem não aparece sob o véu da humildade, como em Belém, nem sob o manto do opróbrio, como no Calvário, mas em Sua realeza manifesta, com a santidade que pesa sobre a alma e com a vida que atravessa a morte.
João já O conhecera no caminho, à mesa, no jardim, junto à cruz.
Mas aqui ele O conhece de outra maneira: não apenas como Amigo, mas como o Primeiro e o Último; não apenas como o Cordeiro, mas como Aquele que tem as chaves; não apenas como o Salvador sofredor, mas como o Senhor ressurreto, vivo para todo o sempre.
É preciso dizer desde o início: pensamentos baixos acerca de Jesus Cristo são uma enfermidade espiritual.
Eles diminuem o Evangelho, enfraquecem a consciência, adormecem a gratidão, empobrecem a alegria e tornam a obediência uma formalidade cansada.
Um Salvador pequeno produz um cristianismo pequeno — tímido contra o pecado, frouxo na batalha, indeciso na tentação, frágil na dor.
Mas um Cristo exaltado recoloca todas as coisas em seu devido lugar: o pecado torna-se odioso, porque foi necessário que o Santo morresse; a graça torna-se preciosa, porque custou sangue; a vida torna-se séria, porque foi comprada por preço; e a eternidade torna-se real, porque Aquele que morreu vive e reina.
Todavia, também é verdade o inverso, e ele é igualmente consolador: pensamentos altos acerca de Jesus não nos afastam de Sua ternura; antes, a tornam mais admirável.
A mesma mão que segura as chaves do inferno e da morte é a mão que se põe sobre o discípulo caído.
A mesma voz que fala como muitas águas é a voz que diz: “Não temas.”
O mesmo Senhor que brilha como o sol em sua força é o que Se inclina para restaurar o fraco.
Eis o milagre do Evangelho: a glória não destrói o que a graça adotou.
O esplendor não esmagará o que o amor comprou.
O Rei não despreza o que Ele mesmo resgatou.
Por isso, este livro-sermão não é apenas uma contemplação da grandeza de Cristo; é um remédio para as dores que nascem da nossa pequenez.
A alma, quando vê mais de Cristo, pode, por um momento, perder as próprias forças — como João perdeu.
Mas essa mesma visão, aprofundada e aplicada, devolve vida: porque o conhecimento de Jesus é o grande antídoto contra o medo.
Muitos temores persistem porque Cristo é pouco conhecido, pouco lembrado, pouco saboreado.
Quando Ele se torna grande aos olhos do coração, o mundo encolhe; quando Ele se eleva, a culpa perde a voz de acusação; quando Ele reina, a morte deixa de ser tirana.
A fé aprende a descansar não na própria firmeza, mas na firmeza d’Aquele que vive e esteve morto, e está vivo para sempre.
Aqui, o texto de Apocalipse 1.17–18 se ergue como uma coluna de luz para o crente abatido.
Ele não nos apresenta um Cristo distante, inacessível, meramente terrível em Sua majestade.
Ele nos revela o Cristo que se identifica, que se aproxima, que toca, que fala, que instrui e que governa.
Ele é o Primeiro — antes de todas as coisas.
Ele é o Último — depois que tudo passa.
Ele é o Vivente — cuja existência não é emprestada, nem ameaçada.
Ele foi morto — não como vítima do acaso, mas como oferta perfeita.
Ele vive para todo o sempre — e, portanto, Sua salvação não envelhece, não enfraquece, não falha.
E Ele tem as chaves — porque nada, absolutamente nada, abre ou fecha, prende ou solta, mata ou preserva, sem a permissão do Grande Rei.
Assim, este sermão chama o leitor a um santo exercício: não apenas pensar em Jesus, mas estimá-Lo dignamente; não apenas falar d’Ele, mas coroá-Lo no coração; não apenas buscar consolo em ideias, mas em uma Pessoa viva.
E, se ao primeiro olhar você se sentir como João — fraco, prostrado, como morto — não se desespere.
Há um lugar seguro para desfalecer: aos pés de Cristo.
Ali, a fraqueza não é rejeitada; é visitada.
Ali, o temor não é alimentado; é curado.
Ali, a alma não é deixada no chão; é restaurada pela mão direita do Senhor.
Que o Espírito Santo, que glorifica o Filho, nos conceda uma visão tão reverente e tão viva do nosso Mestre glorioso, que tudo o mais perca o seu brilho enganoso.
E que, ao contemplarmos o Rei, sejamos levantados — não pela confiança em nós mesmos, mas pela palavra que sustenta os abatidos: “Não temas.”
Divino Cordeiro