Charles H. Spurgeon
INTRODUÇÃO Há textos que não apenas instruem — eles abrem caminho.
Há palavras que não ficam na página, mas se tornam uma porta no meio do véu.
Hebreus 4.16 é uma dessas passagens: “Acheguemo-nos, portanto, confiadamente, junto ao trono da graça, a fim de recebermos misericórdia e acharmos graça para socorro em ocasião oportuna.”
Aqui não se ouve apenas um mandamento; ouve-se um convite real, emitido do alto, para almas frágeis que sabem o que é cair, temer, cansar-se e, ainda assim, precisar de Deus.
Este livro-sermão se ergue sobre essa maravilhosa contradição que só o Evangelho resolve: um trono, e ainda assim, graça.
Majestade, e ainda assim, acolhimento.
Soberania, e ainda assim, misericórdia pronta.
O próprio termo é um cântico doutrinário.
Se fosse apenas trono, quem ousaria aproximar-se?
Se fosse apenas graça, quem manteria a reverência?
Mas o Espírito Santo une as duas coisas numa expressão que consola sem amolecer e eleva sem esmagar: trono da graça.
A fé cristã não nos ensina a imaginar Deus como um poder impessoal, distante, indiferente à dor humana.
Ela nos ensina a contemplá-Lo como o Deus vivo que reina, e que reina como Deus de aliança; como o Senhor cuja santidade é infinita, e cuja misericórdia, em Cristo, é igualmente real.
Por isso, a oração verdadeira não é um exercício vazio, nem um hábito religioso, nem um discurso para a própria consciência.
Ela é aproximação: a alma, movida pelo Espírito Santo, encaminhando-se para Deus; desejos vivos, purificados e conduzidos; a criatura indo ao Criador, não para exibições, mas para comunhão.
E, se a oração é aproximação, ela exige um acesso.
Ninguém atravessa o véu por força de sinceridade.
Ninguém entra no palácio por mérito.
Ninguém toca o propiciatório por habilidade.
É precisamente aqui que o Evangelho brilha: o acesso existe, o caminho está aberto, o convite é legítimo — porque há um Grande Sumo Sacerdote.
A ousadia cristã não nasce de presunção, mas de sangue; não nasce de autoestima, mas de mediação; não nasce de “eu posso”, mas de “Ele abriu”.
Por isso, o trono para o qual somos chamados não é o Sinai em chamas, nem o tribunal onde a justiça pune sem remissão.
É o trono estabelecido para dispensar misericórdia aos culpados e socorro aos fracos.
É o lugar onde o Rei não estende um cetro para humilhar o suplicante, mas para recebê-lo.
É o ponto em que a santidade não é negada, porém satisfeita; e a graça não é barata, porém oferecida.
Cristo é o fundamento do convite e a segurança de quem vem.
A oração sobe porque o Mediador vive.
A confiança é possível porque a expiação foi consumada.
O pecador treme, mas não recua; o santo se prostra, mas não se esconde; a igreja suplica, e não desiste, porque sabe onde está e a quem se dirige.
E “ocasião oportuna” — quão cuidadosamente o Espírito Santo escreve.
Nem sempre o socorro vem segundo o nosso relógio, mas ele nunca falha segundo o relógio de Deus.
Existe um tempo em que a tentação parece invencível, e justamente ali a graça se mostra suficiente.
Existe um tempo em que a dor nos rouba a voz, e justamente ali a misericórdia interpreta gemidos.
Existe um tempo em que o coração parece frio, e justamente ali o trono continua sendo de graça, não de crítica severa.
Há um tempo em que o crente se sente pequeno demais para pedir, e justamente ali o texto manda: “Acheguemo-nos.”
Há um tempo em que o não convertido percebe sua miséria, e justamente ali o trono não o expulsa, mas o chama a vir, para receber misericórdia.
Este livro-sermão não pretende oferecer fórmulas para persuadir Deus, como se Deus fosse movido por técnicas; nem pretende reduzir a oração a uma disciplina mecânica.
Ele deseja conduzir o leitor à realidade viva do texto: o privilégio incompreensível de entrar, através de Cristo, na sala de audiência do Grande Rei; a reverência necessária diante do trono; a confiança possível diante da graça; a expectativa ampla de quem sabe que pede a um Deus grande, verdadeiro e real; e a fé firme de quem se recusa a insultar o caráter majestoso com suspeitas e dúvidas, justamente quando está diante dele.
Aqui, então, está o coração desta obra: chamar você para mais perto.
Mais perto do que a culpa permite, mais perto do que o medo ousa, mais perto do que a fraqueza imagina.
Não porque você seja digno, mas porque o trono é de graça.
Não para discutir com Deus, mas para render-se a Ele.
Não para brincar de devoção, mas para tratar com o Senhor da vida.
Não para trazer moedas miúdas, mas para trazer grandes petições, porque é um Rei quem ouve.
E não para sair de mãos vazias, porque o próprio versículo define o propósito da aproximação: receber misericórdia e achar graça.
Que, ao abrir estas páginas, você seja lembrado do que o Evangelho anuncia com santa ousadia: há um trono.
E esse trono, por causa de Jesus, é o trono da graça.
Aproximemo-nos, portanto, confiadamente.
Divino Cordeiro