Charles H. Spurgeon
INTRODUÇÃO Há palavras da Escritura que, de tão familiares, correm o risco de passar por nós como a luz que atravessa uma janela — iluminam o ambiente, mas não detêm o olhar.
E há palavras que, quando o Espírito Santo as torna vivas, transformam-se em uma abertura para a eternidade.
“Porque agora vemos como por espelho, em enigma; mas então veremos face a face.”
Nessa sentença breve, Paulo coloca diante da igreja um contraste que nos humilha e, ao mesmo tempo, nos consola: a pobreza do nosso presente e a grandeza do nosso futuro; o conhecimento parcial de agora e a plenitude da glória que está para vir.
O apóstolo chega a essa afirmação depois de exaltar o amor como a mais excelente das graças.
E não por capricho de linguagem, mas por sabedoria pastoral.
Dons podem distinguir alguns e faltar a outros; brilham por um tempo e cessam, como lâmpadas úteis na noite de uma jornada.
O amor, porém, pertence a todos os que foram vivificados em Cristo; é o sinal da filiação, o pulso da vida nova, a marca dos discípulos.
E, por isso, Paulo não apenas instrui a mente: ele doma o orgulho, corrige rivalidades e recoloca o coração no centro.
Como se dissesse: o conhecimento que vos infla não é tão firme quanto imaginais, e a luz que tendes, embora real, ainda é crepuscular.
Então ele toma a própria experiência humana e a transforma em parábola: a infância e a maturidade.
Não é apenas uma lembrança comovente; é uma chave espiritual.
A vida presente, mesmo para o mais adiantado dos santos, tem algo de infância.
Nós vemos, sim — graças a Deus, vemos — mas vemos através de um meio imperfeito.
Conhecemos, sim — graças a Deus, conhecemos — mas conhecemos em parte.
Há enigmas nas coisas mais simples; há sombras nas verdades mais luminosas; há grandeza demais para nossos olhos pequenos.
E, ainda assim, a promessa está posta com clareza triunfante: haverá um “então”.
Haverá um momento em que o espelho cederá lugar ao rosto; em que o enigma se dissolverá diante da presença; em que a fé, que hoje é a nossa visão, dará lugar à visão, que será o nosso repouso.
Este livro-sermão nasce exatamente nesse ponto de tensão santa: entre o “agora” e o “então”.
Ele não pretende desprezar o que Deus nos concede nesta peregrinação, como se a revelação fosse pouca ou insuficiente.
Pelo contrário: ver “como por espelho” já é milagre de graça para quem nasceu cego; conhecer “em parte” já é misericórdia para quem antes estava morto em delitos e pecados.
Mas também não pretende aceitar como definitivo o que é provisório, nem chamar de plenitude aquilo que é apenas primícia.
Há uma glória futura reservada para os que amam ao Senhor, e ela não será uma simples melhora de grau, como quem ajusta um foco; será uma mudança de ordem: de olhar mediado para olhar direto, de percepção parcial para conhecimento pleno, de sinais para realidade, de ecos para a própria voz.
E, no centro dessa plenitude, não está uma ideia, nem um sistema, nem uma resposta fria a todas as perguntas.
Está uma Pessoa.
O ápice da glória futura não é apenas entender mais, mas ver melhor; não é apenas decifrar a providência, mas contemplar o Deus da providência; não é apenas perceber a harmonia das doutrinas, mas estar diante do próprio Cristo.
A esperança cristã não termina em explicações — termina em comunhão.
“Então veremos face a face.”
A linguagem é simples, mas o conteúdo é oceânico.
O céu não será, para os remidos, um museu de curiosidades teológicas; será a presença do Rei.
E, diante d’Ele, tudo o que hoje nos parece grande diminuirá, e tudo o que hoje mal suportamos será reinterpretado à luz do Seu rosto.
Por isso, ao entrarmos neste tema, precisamos fazê-lo com duas disposições que raramente caminham juntas no coração do homem, mas que a graça une: humildade e desejo.
Humildade, porque nosso entendimento ainda é pequeno e nossa visão ainda é frágil.
Desejo, porque fomos feitos para mais do que sombras; fomos destinados à luz.
Há em nós uma saudade que não se satisfaz com reflexos.
Quem já provou algo da bondade de Deus não consegue, por muito tempo, contentar-se com um conhecimento apenas “em parte”.
A alma regenerada, quanto mais ama, mais aspira; quanto mais vê, mais anseia ver; quanto mais conhece, mais deseja conhecer.
O amor, de fato, é o grande motor dessa esperança: ele não suporta distância eterna, nem aceita que o Amado permaneça para sempre atrás do véu.
Assim, que estas páginas sejam lidas como quem caminha na direção do sol.
Não para alimentar presunção, mas para fortalecer esperança.
Não para inflamar disputas, mas para aprofundar adoração.
Se hoje vemos “como por espelho”, bendigamos a Deus pela visão que já nos deu; e, se ainda vemos “em enigma”, alegremo-nos porque o enigma tem prazo.
O “então” está garantido pela fidelidade d’Aquele que prometeu.
E, quando enfim a fé se transformar em visão, a visão não nos decepcionará: veremos face a face.
Essa será a plenitude da glória futura.
Divino Cordeiro