Charles H. Spurgeon
INTRODUÇÃO Há textos das Escrituras que se erguem diante da alma como montanhas santas.
Não são apenas profundos; são inesgotáveis.
Não apenas instruem; constrangem, humilham, aquecem e adoram por nós, quando o coração, vencido pela glória do que contempla, já não sabe como responder.
João 15.13 é um desses cumes sagrados da revelação divina.
Quando o próprio Cristo declara: "Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a própria vida pelos seus amigos", não estamos apenas diante de uma bela frase sobre afeto, sacrifício ou amizade.
Estamos diante de uma janela aberta para o próprio coração do Redentor.
Este não é um tema periférico da fé cristã.
Também não é apenas uma das muitas maneiras legítimas de se falar da cruz.
Trata-se de uma daquelas verdades centrais nas quais a alma do evangelho parece pulsar com especial clareza.
A morte de Cristo pode e deve ser contemplada em toda a sua riqueza: como satisfação da justiça divina, como cumprimento da aliança eterna, como sacrifício substitutivo, como vitória sobre o pecado, a morte e Satanás, como revelação do caráter de Deus e como exemplo supremo de obediência.
Contudo, entre todos esses esplendores, há um brilho que toca o coração do crente com singular doçura: Cristo morreu por amor.
Morreu voluntariamente.
Morreu conscientemente.
Morreu perseverantemente.
Morreu pelos seus.
Há algo de profundamente comovente no fato de que a maior demonstração do amor de Cristo não tenha sido dada em palavras, mas em sangue.
Ele não apenas ensinou o amor, não apenas ordenou o amor, não apenas ilustrou o amor — Ele entregou-se.
O amor de Cristo não permaneceu no campo das intenções nobres nem se contentou com gestos parciais.
Foi até o fim.
Desceu até o sofrimento.
Curvou-se até a vergonha.
Bebeu o cálice.
Suportou a maldição.
Entrou na escuridão.
E, ao fazê-lo, revelou um amor diante do qual toda linguagem humana se mostra pequena.
Este sermão nos conduz exatamente a esse santo terreno.
Aqui, a cruz não é tratada friamente, como se fosse apenas uma doutrina a ser analisada com exatidão conceitual, embora exija e mereça toda a exatidão.
Aqui, ela também é contemplada como o lugar em que o amor eterno se tornou visível na história.
O Cristo que vai ao madeiro não é uma vítima arrastada pelos homens nem um mártir surpreendido pelos acontecimentos.
Ele é o Filho eterno de Deus, que veio ao mundo para salvar o seu povo, e que, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim.
Sua morte não foi um acidente da providência, mas o cumprimento do decreto divino.
Seu sofrimento não foi mero infortúnio, mas mediação.
Sua cruz não foi derrota, mas triunfo.
E, ainda assim, em toda essa majestade redentora, há ternura; em toda essa glória teológica, há afeição pessoal; em toda essa obra sacerdotal, há amor incomparável.
É justamente isso que torna este tema tão vasto e, ao mesmo tempo, tão acessível.
Nada é mais alto do que o amor de Cristo, e nada é mais necessário para a vida cristã do que conhecê-lo, ainda que em parte.
O crente mais simples pode beber dele e viver.
O teólogo mais maduro pode retornar a ele e se curvar em reverência.
A criança na fé encontra aqui consolo.
O santo experiente encontra aqui profundidade.
O pecador convicto encontra aqui esperança.
O coração frio encontra aqui fogo.
O cansado encontra descanso.
O orgulhoso é abatido.
O abatido é erguido.
O distante é chamado a voltar.
O culpado ouve que ainda há sangue que fala melhor do que o de Abel.
Ao longo destas páginas, veremos que a grandeza desse amor se manifesta não apenas no fato de Cristo ter morrido, mas em como morreu, por quem morreu e para que morreu.
Seu amor resplandece no caráter voluntário de sua entrega, na perfeição de sua obediência, na profundidade de seus sofrimentos e na dignidade infinita de sua pessoa.
Mas esse amor se torna ainda mais espantoso quando nos lembramos dos objetos sobre os quais foi derramado.
Ele entregou a sua vida por aqueles que, por natureza, eram inimigos; por aqueles que nada tinham de atraente em si mesmos; por aqueles cuja indignidade não cessou completamente nem mesmo depois de terem sido chamados amigos.
Aqui está uma das mais humilhantes e, ao mesmo tempo, mais consoladoras verdades do evangelho reformado: o amor de Cristo não nasce de algo belo em nós; é o amor de Cristo que cria em nós tudo quanto Ele ama.
Por isso, este sermão não deve ser lido apenas com a mente atenta, mas com o coração inclinado.
Ele não nos chama somente à compreensão, mas à adoração.
Não nos conduz apenas a definições mais precisas, mas a um espanto mais reverente.
O objetivo não é simplesmente provar que Cristo nos amou, mas levar-nos a sentir, pela graça do Espírito Santo, algo da largura, do comprimento, da profundidade e da altura desse amor que excede todo entendimento.
Há momentos em que a verdade precisa ser defendida; há outros em que precisa ser saboreada.
Aqui, ambas as coisas se encontram.
A doutrina é sólida, mas não seca.
A teologia é elevada, mas não fria.
O raciocínio é firme, mas o coração pulsa em cada linha.
E há ainda uma santa consequência prática que não pode ser ignorada.
O amor de Cristo não apenas salva; ele constrange.
Não apenas redime; transforma.
Não apenas perdoa; reproduz-se na vida daqueles que o recebem.
Quem contempla o Cordeiro crucificado não pode permanecer o mesmo.
Quem crê que foi amado até esse ponto é chamado a amar também.
Amar a Cristo com maior intensidade.
Amar os irmãos com maior sinceridade.
Amar os pecadores com maior compaixão.
O amor que desceu do céu, passou pela cruz e foi derramado em nossos corações pelo Espírito deve agora refletir-se na igreja e transbordar para o mundo.
Que o leitor, portanto, não se aproxime deste sermão como quem apenas examina um documento religioso do passado, mas como quem pisa em solo santo.
Aqui, a alma é chamada a contemplar o maior de todos os amores: amor voluntário, substitutivo, perseverante, imerecido, infinito e vitorioso.
Amor que não recuou diante da vergonha, não desistiu diante da traição, não se extinguiu sob o peso da ira, não foi vencido pela morte.
Amor que permaneceu firme até poder dizer: está consumado.
Se o Senhor se dignar abençoar estas páginas, muitos leitores talvez descubram que a verdadeira grandeza da vida cristã não está em experiências extraordinárias, nem em discursos elaborados, nem em pretensões de força espiritual, mas em viver aos pés da cruz, contemplando pela fé aquele que nos amou e a si mesmo se entregou por nós.
E, se assim for, este sermão terá cumprido nobremente o seu propósito: não apenas falar do amor de Cristo, mas conduzir pecadores e santos a descansarem, humilharem-se, alegrarem-se e gloriarem-se nele.
Aqui, portanto, está o tema: não um amor humano elevado até o céu, mas o amor do Filho de Deus descendo até a cruz.
Não a devoção dos amigos por Cristo em primeiro plano, mas o amor de Cristo por seus amigos.
Não o amor que mede, calcula ou recua, mas o amor que se entrega.
Não o amor sentimental, mas o amor redentor.
Não o amor abstrato, mas o amor pregado no madeiro.
Diante de tal verdade, convém que toda presunção se cale, toda frieza se envergonhe, toda incredulidade recue e toda adoração se levante.
Pois, em toda a história da redenção, em toda a literatura da igreja, em toda a experiência do povo de Deus, permanece de pé esta palavra incomparável, doce e terrível em sua glória: "Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a própria vida pelos seus amigos."
Divino Cordeiro