Charles H. Spurgeon
INTRODUÇÃO Vivemos em um tempo que fala muito sobre sucesso, prestígio, projeção e reconhecimento, mas compreende pouco o verdadeiro significado da honra.
O mundo chama de honra aquilo que muitas vezes não passa de aplauso passageiro; exalta o nome que sobe depressa, mas ignora o caráter que amadurece lentamente diante de Deus.
Honra, para muitos, é visibilidade.
Para as Escrituras, porém, honra não é o brilho superficial da reputação humana, mas o fruto santo de uma vida ordenada sob a vontade do Senhor.
Ela não nasce da autopromoção, mas da fidelidade.
Não floresce da ambição carnal, mas da obediência perseverante.
Não é conquistada pela exaltação de si mesmo, mas recebida por aqueles que aprenderam a servir.
Salomão, com a precisão serena da sabedoria divina, toma duas imagens simples e profundas para nos ensinar essa verdade.
A primeira vem do campo: o homem que cuida da figueira não o faz em vão; seu trabalho silencioso, constante e paciente será recompensado no tempo certo com fruto.
A segunda vem da vida doméstica: o servo que serve bem ao seu senhor não perde sua fidelidade no vazio; sua diligência, sua constância e sua lealdade serão finalmente reconhecidas.
Assim, a Palavra une lavoura e serviço, cuidado e submissão, trabalho e recompensa, para nos mostrar que a honra verdadeira não é um acidente da vida, mas uma colheita moral e espiritual.
Essa verdade, porém, alcança sua plenitude somente quando é elevada acima das relações terrenas e aplicada à realidade suprema da vida cristã.
Há um Senhor maior do que todos os senhores da terra.
Há um serviço mais alto do que qualquer ofício humano.
Há uma honra mais pura do que toda aprovação social.
O texto de Provérbios, lido à luz de Cristo, nos conduz para além da figueira e para além do servo doméstico, até o santo privilégio daqueles que pertencem ao Senhor Jesus e vivem inteiramente para Ele.
Pois, se há glória em servir a um bom senhor na terra, que honra haverá em servir ao Filho de Deus?
Se já reconhecemos dignidade na fidelidade entre os homens, quanto mais na fidelidade prestada Àquele que nos comprou com Seu sangue, nos libertou com Seu poder e nos chamou para a comunhão de Seu reino?
Este livro-sermão nasce justamente nesse ponto.
Ele trata da honra, mas não da honra que os homens fabricam entre si.
Trata da honra que procede de Deus, da honra que acompanha a fidelidade, da honra que se encontra no próprio serviço prestado a Cristo.
Em uma geração que deseja reinar, mas não servir; aparecer, mas não obedecer; ser notada, mas não santificada, precisamos voltar a aprender que o caminho para a verdadeira exaltação passa pela senda estreita da sujeição ao Senhor.
Na economia do Reino, os mais altos são os que mais se curvam.
Os mais ricos são os que se esvaziam por amor a Cristo.
Os mais honrados são os que têm prazer em ocupar o lugar de servos.
Não há nada humilhante em ser servo de Jesus.
Pelo contrário, aí está a mais alta dignidade do homem redimido.
O pecado degradou o ser humano justamente porque o arrancou da obediência santa e o lançou na escravidão de desejos inferiores.
Mas a graça restaura o homem recolocando-o sob o jugo suave e bendito de Cristo.
Fora dEle, a autonomia humana parece nobre, mas termina em ruína.
N’Ele, a rendição parece baixa aos olhos do mundo, mas é coroada de glória diante de Deus.
O evangelho não nos chama para uma independência rebelde, mas para uma servidão santa.
Não nos promete a falsa majestade de vivermos para nós mesmos, mas a verdadeira bem-aventurança de pertencermos, sem reservas, ao Senhor.
É por isso que a pergunta central deste livro não é apenas: que tipo de honra buscamos?
A pergunta mais profunda é: a quem servimos?
Enquanto essa questão não for resolvida, toda reflexão sobre dignidade, propósito, identidade e recompensa permanecerá superficial.
O homem foi criado para viver diante de Deus, sob Deus e para a glória de Deus.
Quando essa ordem é restaurada em Cristo, tudo encontra seu lugar.
O coração encontra seu centro.
A consciência encontra seu descanso.
A vontade encontra seu governo.
E a vida, antes dispersa em muitos senhores, é finalmente reunida sob um só domínio: o senhorio absoluto, sábio, santo e amoroso de Jesus Cristo.
Este sermão, portanto, não é apenas uma meditação sobre dever.
É uma convocação à realidade mais nobre da vida cristã.
Ele nos chama a contemplar quem é o nosso Mestre, o que significa pertencer a Ele e qual é a conduta que convém aos que foram resgatados por Sua graça.
Também nos chama a olhar para a recompensa prometida aos servos fiéis, não como mercenários em busca de pagamento, mas como filhos e servos que descobriram que a maior honra já está em estar junto de Cristo, viver para Cristo e ser achados aprovados por Cristo.
Ao longo destas páginas, veremos que toda a beleza da vida cristã está concentrada nessa relação santa entre o Senhor e os Seus.
Cristo não é para o Seu povo apenas um exemplo admirável, um mestre moral ou um nome venerável na história da religião.
Ele é o Senhor vivo, o Redentor glorioso, o Mestre legítimo, o Rei que tem direito sobre cada pensamento, cada afeto, cada decisão e cada parte da nossa existência.
Ele não reivindica apenas uma parte do homem, mas o homem inteiro.
Não pede mera simpatia, mas lealdade.
Não aceita devoção parcial, mas exige — e merece — o coração completo.
Veremos também que essa relação exige uma forma de vida coerente com ela.
Se Cristo é Senhor, então não somos nossos.
Se pertencemos a Ele, não dispomos livremente de nosso tempo, nossos dons, nossos afetos e nossos caminhos.
Tudo deve ser colocado aos Seus pés.
O verdadeiro servo não busca adaptar a vontade do Mestre às conveniências da carne; antes, submete sua vontade à vontade soberana dAquele que não pode errar.
A grande crise do nosso tempo não é meramente doutrinária, emocional ou cultural.
Em sua raiz, é uma crise de senhorio.
Muitos querem os benefícios de Cristo sem o governo de Cristo, o consolo de Cristo sem os mandamentos de Cristo, a salvação de Cristo sem a rendição a Cristo.
Mas o evangelho não nos oferece um Cristo dividido.
Ele vem a nós como Salvador e Senhor.
E, por fim, seremos lembrados de que a fidelidade não terminará em silêncio.
O mundo pode desprezar os servos de Cristo.
Pode chamá-los de estreitos, inflexíveis, antiquados, excessivamente zelosos ou até insensatos.
Pode honrar seus próprios ídolos e passar ao largo dos santos mais fiéis.
Mas nenhuma lágrima de obediência, nenhum ato de amor escondido, nenhuma renúncia feita por causa de Jesus, nenhum serviço humilde prestado em Seu nome será esquecido.
O Senhor não é injusto para se esquecer da obra de Seus servos.
A honra pode tardar aos olhos dos homens, mas jamais falhará diante de Deus.
O mesmo Cristo que chama Seus servos à fidelidade é Aquele que um dia os confessará diante do Pai e dos santos anjos.
Assim, este livro-sermão é um chamado à restauração da grandeza esquecida da servidão cristã.
É um convite para abandonar a busca vazia por honras terrenas e abraçar a glória escondida de viver para o Senhor.
É uma exortação a olhar para Cristo não apenas com admiração, mas com rendição; não apenas com afeto, mas com obediência; não apenas com reverência verbal, mas com entrega real.
Pois o caminho para a honra não passa pelos degraus da autoglorificação, mas pela escada da humildade, da lealdade e da perseverança aos pés do Rei.
Que o leitor entre neste tema não com espírito leve, mas com santa atenção.
Estamos tratando de uma verdade que toca o centro da vida cristã.
O que somos depende de quem é o nosso Senhor.
O modo como vivemos revela a quem pertencemos.
E a honra que finalmente receberemos mostrará se servimos ao mundo, ao eu ou ao bendito Filho de Deus.
Bem-aventurado, então, é aquele que aprende cedo e profundamente esta lição: não existe caminho mais alto do que servir a Cristo, e não existe honra maior do que ser achado fiel diante d’Ele.
Divino Cordeiro