Charles H. Spurgeon
INTRODUÇÃO Há acontecimentos tão grandes que não podem ser encerrados apenas em palavras.
Há verdades tão vastas, tão centrais e tão luminosas que, para serem continuamente mantidas diante dos olhos dos homens, Deus mesmo se digna associá-las a sinais visíveis, simples e permanentes.
A morte de Cristo é uma dessas realidades.
Ela não é apenas um fato da história; é o centro da redenção.
Não é apenas um episódio memorável; é o eixo em torno do qual giram a esperança do pecador, a paz da consciência, a vida da igreja e a glória do evangelho.
Por isso, nosso Senhor Jesus Cristo, em Sua infinita sabedoria e ternura, não deixou que Sua morte fosse preservada apenas em livros, por mais inspirados e preciosos que sejam, mas instituiu uma santa ordenança pela qual, de geração em geração, Sua igreja a anuncia até que Ele venha.
O tema deste livro-sermão nos introduz, portanto, em uma contemplação de altíssima grandeza.
Quando o apóstolo declara: “Todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice, anunciais a morte do Senhor até que Ele venha”, ele nos mostra que a Ceia do Senhor não é apenas um ato devocional privado, nem apenas um momento de consolo interior, nem meramente uma observância eclesiástica respeitável.
Ela é, em seu próprio caráter, uma proclamação.
É uma exposição.
É uma apresentação visível, ordenada pelo próprio Cristo, do maior acontecimento da história do mundo.
Não existe cena mais sublime, não existe mensagem mais decisiva, não existe verdade mais profundamente transformadora para o destino humano do que esta: o Filho de Deus morreu pelos pecadores.
Chamar a Ceia do Senhor de a maior exposição da história não é, portanto, exagero algum.
Antes, é reconhecer a dignidade singular daquilo que nela se apresenta.
Todos os grandes acontecimentos da humanidade, por mais impressionantes que sejam aos olhos dos homens, empalidecem diante da cruz.
Reinos se levantaram e caíram; impérios marcharam sobre a terra; revoluções mudaram a face das nações; descobertas alteraram os caminhos da civilização; homens célebres deixaram seus nomes gravados em mármore e bronze.
Mas que são todas essas coisas, reunidas em seu esplendor passageiro, quando comparadas ao fato de que Deus manifestado em carne, o Justo, entregou-Se à morte em lugar dos injustos, para conduzi-los a Deus?
Aqui está o verdadeiro centro da história.
Aqui está o acontecimento diante do qual o tempo se curva, a eternidade se aproxima e o céu inteiro se inclina com admiração.
E é precisamente esse acontecimento que a igreja expõe na mesa do Senhor.
Não com as armas da pompa, não com os recursos do espetáculo, não com o fascínio da grandiosidade exterior, mas com a simplicidade majestosa do pão e do cálice.
O mundo admira exibições que impressionam os sentidos; Cristo nos deu uma exposição que alcança a consciência, humilha o orgulho, alimenta a fé e anuncia a salvação.
Nada poderia parecer mais simples, e nada poderia ser mais profundo.
O pão partido e o cálice repartido, em sua santa separação, em sua humilde clareza, em sua repetição ordenada ao longo dos séculos, proclamam silenciosamente aquilo que nenhum gênio humano poderia ter inventado e que nenhuma religião natural poderia produzir: a morte substitutiva do Filho de Deus.
Há uma beleza singular nessa simplicidade.
O Senhor Jesus não quis que Seu povo dependesse de monumentos frágeis, de registros sujeitos ao esquecimento ou de tradições entregues à instabilidade da memória humana.
Ele escolheu algo vivo, repetido, comunitário, inteligível e espiritualmente eloquente.
Escolheu uma refeição sagrada.
Escolheu sinais que falam por sua própria natureza.
Escolheu elementos comuns para comunicar a mais extraordinária de todas as verdades.
Assim, a maior exposição da história não é confiada à magnificência dos palácios, nem à segurança dos arquivos, nem ao poder dos impérios, mas à humilde fidelidade da igreja reunida em torno de seu Senhor crucificado e ressuscitado.
Mas esta exposição só é verdadeiramente compreendida quando recebida espiritualmente.
A Ceia do Senhor não foi dada para ser observada de maneira mecânica, superficial ou meramente cerimonial.
Ela exige do coração mais do que presença; exige discernimento.
Requer mais do que hábito; requer fé.
Pede mais do que memória natural; pede amor, reverência, comunhão e entendimento espiritual.
Porque o grande perigo de toda ordenança santa é ser reduzida à forma externa.
E, quando isso acontece, o que deveria ser vida se torna rotina; o que deveria ser proclamação se torna costume; o que deveria conduzir a Cristo se torna gesto vazio.
Por isso, aproximar-se desta mesa sem alma desperta é perder precisamente aquilo que nela há de mais precioso.
Este livro-sermão convida o leitor a olhar para a Ceia do Senhor não como mero rito da igreja, mas como uma divina exposição da morte de Cristo.
Uma exposição que fala à mente, aos afetos, à consciência e à esperança.
Uma exposição que mostra o que está no coração do evangelho.
Uma exposição que desmente o mundo, confunde o orgulho humano e proclama que não há salvação em nenhum outro, porque não há outro nome debaixo do céu dado entre os homens pelo qual devamos ser salvos.
Uma exposição que continua necessária porque a cruz continua sendo o coração da mensagem cristã, o ponto central do combate espiritual e a única esperança real para o pecador culpado.
Também há aqui uma nota profundamente consoladora para a igreja.
O mesmo Cristo que ordenou esta exposição prometeu que ela duraria “até que Ele venha”.
Isso significa que a morte que anunciamos permanece eficaz, preciosa, poderosa e suficiente durante toda a peregrinação da igreja neste mundo.
Não se trata de um fato esgotado pelo tempo, nem de uma lembrança enfraquecida pela distância dos séculos.
A cruz continua viva em seu poder salvador.
O sangue continua falando melhor do que o de Abel.
A expiação não envelheceu.
A fonte aberta para o pecado e para a impureza não secou.
A ordenança permanece porque a graça que ela proclama permanece.
E permanecerá até o dia em que a fé dará lugar à vista, o memorial cederá lugar à presença e o Cristo anunciado na Ceia será contemplado face a face em Sua glória.
Há, portanto, algo solenemente belo nesta instituição.
Ela nos volta ao passado, à cruz; nos firma no presente, em comunhão com Cristo; e nos projeta ao futuro, à Sua vinda.
Ela nos ensina a olhar para trás com gratidão, para cima com fé e para diante com esperança.
Ao partirmos o pão e bebermos do cálice, não apenas relembramos um fato consumado; também alimentamos a alma daquilo que esse fato conquistou e aguardamos o dia em que o Senhor, que morreu, virá novamente.
A maior exposição da história é, por isso, também uma janela aberta para a eternidade.
Que o leitor se aproxime destas páginas com reverência e fome espiritual.
Reverência, porque estamos tratando do centro da fé cristã.
Fome espiritual, porque não basta admirar a exposição; é necessário participar, pela fé, da realidade exposta.
O grande alvo não é apenas entender a Ceia do Senhor como símbolo, mas ser levado por ela ao próprio Cristo.
Não apenas reconhecer a beleza da ordenança, mas alimentar-se da verdade que ela proclama.
Não apenas celebrar a memória da cruz, mas viver do poder da cruz.
Se, ao longo desta meditação, o Espírito Santo nos conduzir a ver com mais clareza a excelência da morte de Cristo, a simplicidade gloriosa de Sua instituição e a necessidade de uma comunhão viva com Ele em Sua paixão e em Sua esperança, então esta introdução terá servido ao seu propósito.
Porque, no fim, a maior exposição da história não alcança seu verdadeiro objetivo quando apenas informa a mente, mas quando leva a alma a dizer, com fé humilde e santa gratidão: Cristo morreu por mim, Cristo é minha vida, Cristo é minha esperança, e até que Ele venha eu O anunciarei.
Divino Cordeiro