Charles H. Spurgeon
INTRODUÇÃO Há passagens das Escrituras que nos constrangem a tirar as sandálias dos pés, porque o terreno em que pisamos é santo.
João 6 é uma delas.
Aqui não estamos diante de uma simples figura religiosa, nem de um enigma destinado a satisfazer a curiosidade dos especuladores, mas de uma declaração majestosa, profunda e indispensável para a salvação: a vida verdadeira, a vida eterna, a vida que vence a morte, a culpa, o pecado e o inferno, não nasce do homem, não brota da religião, não se desenvolve da carne e não pode ser produzida por cerimônias; ela vem de Cristo, e somente de Cristo.
Nosso Senhor fala com a autoridade de quem conhece perfeitamente a ruína do homem e a suficiência de Sua própria obra.
Ele não oferece um adorno para a vida natural, nem um complemento para a moralidade humana, nem um auxílio para almas já supostamente saudáveis.
Ele Se apresenta como alimento para os famintos, bebida para os sedentos e vida para os mortos.
Toda a força desta passagem está precisamente aí: Cristo não é um acessório da fé cristã, mas sua própria substância; não é um auxílio periférico à salvação, mas o próprio Salvador dado por Deus ao mundo; não é apenas mestre para instruir a mente, mas Redentor para sustentar a alma.
Ao longo dos séculos, palavras tão solenes foram frequentemente obscurecidas por interpretações carnais, superstições sacramentais e raciocínios que, em vez de exaltar a glória espiritual do evangelho, a rebaixaram aos limites da letra morta.
Mas o ensino de Cristo, nesta passagem, ergue-se acima de toda leitura grosseira e terrena.
O Senhor não chama homens a um canibalismo blasfemo, nem ata a vida eterna ao simples ato exterior de participar de símbolos sagrados.
Ele fala da fé viva, da união real com Sua pessoa, da apropriação espiritual de Sua obra e da recepção interior de Seu sacrifício.
Comer Sua carne e beber Seu sangue é receber, pela fé, tudo o que Ele é e tudo o que Ele fez em favor dos pecadores.
Este é, portanto, um tema de inexaurível grandeza.
Trata-se da relação mais íntima que a alma pode ter com o Filho de Deus.
Não basta admirá-Lo de longe, nem honrá-Lo com os lábios, nem discutir corretamente Sua doutrina, nem defender ortodoxamente Seu nome.
É necessário recebê-Lo.
É necessário alimentar-se d’Ele.
É necessário que a alma, convencida de sua total pobreza, encontre n’Ele sua comida, sua bebida, sua força, sua paz e sua esperança.
O cristianismo verdadeiro não consiste meramente em ouvir sobre Cristo, mas em viver de Cristo.
Há também, nesta verdade, uma santa humilhação para todo orgulho humano.
O texto não nos permite conservar qualquer ilusão sobre recursos interiores, reservas morais ocultas ou supostas centelhas de vida espiritual já existentes no homem natural.
Se Cristo diz: “se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tendes vida em vós mesmos”, então toda pretensão da natureza cai por terra.
O homem sem Cristo pode ter cultura, decência, refinamento, reputação e religião externa; mas, se não recebeu o Filho de Deus, continua morto em delitos e pecados.
A vida não se aperfeiçoa nele; precisa ser lhe dada.
E essa dádiva desce do céu na pessoa do próprio Senhor Jesus.
Ao mesmo tempo, esta passagem transborda consolação para os cansados, os despertados, os abatidos e os famintos de espírito.
Porque, se a vida vem de Cristo, então ela não depende da grandeza do pecador, mas da suficiência do Salvador.
Não depende do mérito de quem recebe, mas da plenitude daquele que é recebido.
Não depende da dignidade da mão que se estende, mas da excelência do pão que Deus oferece.
Aqui está a esperança do fraco, do culpado, do contrito e do perdido: Cristo é alimento verdadeiro.
Seu sangue é verdadeira bebida.
Sua pessoa é plenamente adequada à necessidade mais profunda da alma.
Este livro-sermão nos conduz, portanto, ao coração da fé cristã.
Ele nos chama a abandonar tanto o formalismo religioso quanto a incredulidade racionalista, tanto a confiança em sacramentos sem fé quanto a pretensão de aproximar-se de Deus sem o Mediador crucificado.
Aqui somos levados ao Cristo encarnado, entregue, morto, ressuscitado e vivo para sempre.
Aqui aprendemos que a alma só vive quando se une a Ele, e que essa união se realiza não por obras, nem por ritos, nem por esforços naturais, mas pela fé que recebe, descansa, apropria-se e alimenta-se do Redentor.
Que o leitor se aproxime destas páginas com reverência, mas também com santa fome.
Reverência, porque estamos tratando de um dos mistérios mais sublimes do evangelho: a união vital entre Cristo e o crente.
Fome, porque não basta compreender esse tema de modo intelectual; é necessário experimentá-lo.
O grande alvo não é apenas explicar uma metáfora, mas conduzir o coração ao próprio Cristo.
Não é apenas definir o que significa comer e beber espiritualmente, mas chamar pecadores e santos a se assentarem, de novo e de novo, à mesa invisível da graça, onde a alma se alimenta daquele que é o pão vivo que desceu do céu.
Se estas páginas, pela bênção do Espírito Santo, levarem alguém a ver com mais clareza a insuficiência de tudo o que não é Cristo, a excelência incomparável de Sua pessoa, a eficácia de Seu sacrifício e a doçura de uma vida inteiramente dependente d’Ele, então seu propósito terá sido alcançado.
Porque a grande necessidade da igreja, do púlpito e de cada alma não é menos religião exterior, nem apenas melhor linguagem teológica, mas mais de Cristo recebido, mais de Cristo amado, mais de Cristo crido, mais de Cristo vivido.
Aqui, enfim, está a glória do evangelho: o Filho de Deus Se dá a pecadores para ser sua vida.
E aquele que d’Ele se alimenta nunca ficará vazio.
Nele há pão para os famintos, água para os sedentos, perdão para os culpados, força para os fracos, santidade para os impuros, perseverança para os combatentes, consolo para os aflitos e ressurreição para os que dormem no pó.
Tudo está em Cristo.
Tudo vem de Cristo.
Tudo permanece em Cristo.
E fora d’Ele não há vida alguma.
Que o Senhor, em Sua infinita misericórdia, faça desta meditação não apenas uma exposição fiel de Sua Palavra, mas também um instrumento vivo de comunhão com Seu Filho, para que muitos possam dizer, com alegria humilde e sincera, que encontraram n’Ele não apenas doutrina para a mente, mas alimento para a alma, descanso para a consciência e vida eterna para todo o ser.
Divino Cordeiro